Carinho dos pais ajudam crianças autistas a darem e receberem afeto
No Dia Mundial do Autismo, familiares e especialistas fazem campanha contra o mito de que portadores não reconhecem o carinho
Aos dois anos de idade, o caçula da família Fonseca, João Pedro, foi
diagnosticado como portador do transtorno autista. Desde então, o menino
fez - e faz - cair por terra os estereótipos disseminados sobre o
problema no desenvolvimento infantil que afeta um milhão de pessoas do
Brasil, conforme contabilizou o Instituto de Psiquiatria da Universidade
de São Paulo (USP).
"Quem olha para o João Pedro, hoje com nove anos,
cantando, feliz, brincando e sendo este menino que é carinho puro,
duvida que ele seja autista. Deve ser porque eu nunca duvidei do
turbilhão de sentimentos e capacidades que sempre moraram dentro do meu
filho”, avalia Denise Fonseca, 40, que é professora e faz parte de um
grupo de mães de autistas do Rio de Janeiro, o Mundo Azul.
“Graças à terapia precoce e a nossa não desistência,
todas essas sensações foram, pouco a pouco, traduzidas em beijos e
abraços diários”, completa.
Causas e consequências
Os especialistas ainda não conseguem afirmar com clareza
quais são as causas do autismo - condição que não é detectada por exames
no pré-natal e, na maior parte das vezes, só se manifesta a partir dos
dois anos de idade. Mas os estudiosos sabem que os principais sintomas
do espectro autista - dificuldade na fala, na comunicação, de fazer
contato visual e estabelecer relação com o entorno - contribuíram para
disseminar duas informações equivocadas e perigosas sobre eles.
“Um dos maiores perigos de acreditar que o autista é
incapaz de afeto e que não vive no mesmo mundo que o nosso é que, assim,
ele acaba subestimado e diminui as chances de desenvolvimento da
criança”, alerta a psicomotricista e pedagoga Eliana Boralli Mota,
fundadora da AUMA (Associação dos Amigos da Criança Autista).
“Eu trabalho há 24 anos na área e conheci autistas de
todos os lugares: Brasil, América Latina, Europa e Japão. Em todos os
casos, sempre encontrei neles o idioma universal do afeto. Mas é preciso
um trabalho para ajudá-los a organizar estas sensações e então
manifestá-las", orienta Eliana.
Preconceito no consultório
Os potenciais afetivos e de capacidades dos autistas são
minados pelo preconceito e pela falta de informação presentes,
inclusive, em parte dos psicólogos, psiquiatras e neurologistas. Eliana,
por exemplo, antes de virar especialista na área, levou a filha
Nathália, na época com três anos, à clínica de um dos nomes mais famosos
do tratamento de autistas dos anos 1990.
“O médico disse que minha filha nunca seria capaz de
falar. Sentenciou que, em 15 anos, ela estaria internada em uma clínica,
com camisa de força”, lembra a mãe que ficou incomodada com a rapidez
de um prognóstico tão severo, dado após um único contato com a menina.
“Eu não me conformei com aquelas informações e fui atrás
de outras possibilidades. Hoje, a Nathália está com 27 anos, é
alfabetizada, uma pessoa cheia de vontades e bem temperamental. Tenho um
orgulho danado quando a vejo expressar sensações das mais elaboradas.
Ela sempre diz ter saudade de mim", diz a mãe que atua para levar estas
possibilidades de convívio afetivo dos autistas a outros pais.
João Pedro foi diagnosticado como portador do transtorno autista aos dois anos de idade
Sensações aguçadas
As descrições científicas sobre os autistas confirmam que
o caminho entre "sentir" e "manifestar" é mais complicado para eles do
que para os não portadores do transtorno. De acordo com as descrições
dos catálogos médicos “há modificação na captação e organização
sensorial da audição, visão, paladar, olfato e tato”. Estas alterações
comprometem a capacidade de imitação, percepções, coordenação motora e
integração por vias sensoriais.
“A maior dificuldade do autista é se colocar no lugar do
outro", define a fonoaudióloga Aline Kabarite, diretora do Instituto
Priorit - entidade que oferece atendimento multifatorial (psicologia,
dança, esporte, teatro e terapia) a cerca de 100 crianças e adolescentes
autistas.
Aline explica que as sensações para o autista são, em
alguns casos, muito mais aguçadas. “Às vezes, um som que passa
despercebido para outras pessoas provoca um incômodo terrível nos
autistas. Um abraço não desperta, imediatamente, prazer, e sim,
desconforto”, informa.
Por isso, explica ela, o trabalho com os autistas tem
como objetivo fazer com que eles fiquem adaptados a uma forma de
linguagem que torne mais fácil expressar as sensações e receber essas
informações.
“É um refinamento social e é importante que os pais
reconheçam as formas de afeto que inicialmente podem estar ocultas”, diz
ao citar exemplos. “Enquanto a criança autista não reconhece como
processar o carinho da mesma maneira que nós estamos acostumados, para
ela fazer um desenho, preparar um café da manhã ou colocar a mão no
ombro podem ser maneiras mais elaboradas de expor suas sensações
afetivas.”
Receio inicial
Com o trabalho multifatorial, afirmam os especialistas,
paulatinamente, essas expressões de sensações ficam menos codificadas e
já não exigem a “tecla SAP” por parte dos pais, irmãos ou professores. É
fato que alguns autistas apresentam sintomas mais leves, outros mais
moderados e existem os casos severo. Essas modulações interferem na
interação com o entorno.
Em todos os casos, solicita Roberta Marcell,
especializada em neuropsicologia e saúde mental e desenvolvimento
infanto-Juvenil pela Santa Casa do Rio de Janeiro, o importante é não
abrir mão da comunicação pelo caminho do afeto com os filhos.
Eliana e a filha Nathália, com 27
anos: 'Disseram que ela nunca falaria. Nathália hoje é alfabetizada e
expressa sensações elaboradas, como a saudade'
“Mesmo que os pais tenham dificuldade em reconhecer o
carinho dos filhos, eles não devem desistir de demonstrar o amor que
sentem pela criança. Essa construção de relação não deve ser abandonada
nunca.”
Alessandra Rodrigues Pereira, 35, é exemplo. Quando
recebeu o diagnóstico de autismo do filho Eduardo, então com um ano e
sete meses de vida, foi invadida por um temor. “Naquele momento, eu
perdi meu filho. Não apenas o filho idealizado, eu perdi aquele bebê
saudável, que dava lindas gargalhadas, mandava beijos. Naquele momento,
eu temia o futuro.”
A suspeita de que Eduardo se desenvolvia de maneira
diferente das outras crianças veio com uma comparação próxima. O garoto é
irmão gêmeo de Luísa e ela crescia em um compasso diferente do que
regia o irmão. Alessandra, funcionária pública do Ceará, procurou ajuda
terapêutica para o filho o mais rápido possível. A decisão surtiu
efeito, pois, com ela, a mãe também aprendeu que aquele estereótipo
“pessoa isolada, estagnada, que passava o tempo inteiro balançando o
corpo e não se comunicava com ninguém não correspondia à realidade.”
“Hoje eu tenho uma criança que corre, sorri, tenta
mostrar o que quer – embora não fale”, diz a mãe sobre o menino que faz
acompanhamento com psicóloga, neuropediatra, fonoaudióloga e terapeuta
ocupacional e tem aquela bela ajuda de Luísa que trata o irmão sem
ressalvas ou limitações.
Eduardo sempre surpreende Alessandra “com a mãozinha dele
no meu cabelo enquanto estou dirigindo”. Nathália sempre quando observa
a mãe cansada, pergunta “o que aconteceu com você?”, questionamento que
Eliana quase não ouve de outras pessoas. João Pedro, fã de Skank e NX
Zero – grupos que aprendeu a gostar por influência do irmão Jorge -
parece ter o radar ligado sobre o que acontece em sua volta. Só um
exemplo, cita a mãe Denise: “Se escuta, lá longe, alguém espirrando, já grita ‘saúde’”.
